
Não existem ainda conclusões definitivas sobre a origem do povo japonês.
Pesquisas e estudos continuam a revelar fatos e aspectos arqueológicos e
históricos até então insuspeitos. Por exemplo, em 1949, um jovem de nome Chuyo Aizawa descobre,
numa estrada da aldeia de Iwajuku, na província de Gumma (Gumma-Ken), numa
camada de solo da fase final da época diluviana (há mais de 10 mil anos), um
objeto de pedra lascada. Desde então, em mais de cem localidades, espalhadas
de Hokkaido até Kyushu, encontraram-se objetos de pedra lascada.
Tais descobertas demonstram que o Arquipélago Japonês há mais de 10 mil anos
é habitado pelo homem. Depois do achado de Iwajuku, outras pedras lascadas com
idade mais antiga, de 150 mil a 240 mil anos, se descobriram em Fujiyama, de
Gumma-Ken e outras localidades.
Em 1967, na vila de Hoshino, Tochigi-ken, descobrem-se não só objetos de pedra
lascada como também restos de habitações de homens primitivos.
De onde procedem esses primitivos habitantes do Japão? Existe alguma relação
entre eles e os nipônicos atuais? Arqueólogos e antropólogos pesquisam estes
e outros problemas de grande interesse para todos os estudiosos da história,
ou melhor do da pré-história do Japão. Mas até agora não se chegou a qualquer
resultado definitivo.
Estudos eológicos fazem supor que há até cerca de 10 mil anos (que corresponde
à fase final da época diluviana) o Japão esteve ligado ao continente asiático, tendo
o atual mar do Japão como uma espécie de mar interior. Acredita-se que os dois extremos
do que seria então o Japão estariam ligados às terras do continente. Fósseis de rinocerontes
e elefantes das espécies existentes no continente encontram-se em muitos pontos de Norte a Sul
do país.
Com a a ocorrência de depressões geológicas, como a formação do mar da China Oriental, as terras
nipônicas se separam do continente, constituindo-se finalmente, há uns oito mil anos, o atual
Arquipélago com as quatro principais ilhas de Honshu, Kyushu, Shikoku e Hokkaido e outras milhares de ilhas e ilhotas.
Não se conhecem ainda todos os pormenores da vida daqueles primitivos habitantes do Japão. Pesquisas
de restos arqueológicos mostram que eles não possuem residência fixa, migram constantemente à
procura de alimentos (caça, pesca, frutos do mato).
Inexistem confecções de barro nas terras onde surgem objetos de pedra lascada. Prova isso que
os habitantes ignoram a técnica de fazer objetos de barro. Mas conhecem o uso do fogo e de lanças
para a caça. Ainda não sabem fazer o arco e a flecha.
Estudos feitos no pós-guerra comprovam que o Japão tem sua idade paleolítica que dura mais de 200
mil anos.
Finda a idade paleolítica, inicia-se, há cerca de 10 mil anos, a neolítica ou de pedra polida,
em toda a Terra. Também no Japão se inicia há cerca de 7.500 anos o uso da pedra polida e a
confecção de objetos de barro (argila).
No período neolítico o Japão fica isolado do continente, pois então não existem embarcações
capazes de fazer viagens entre o Arquipélago e o continente. Durante vários milhares de anos
vive sem contato com a cultura continental.
Os habitantes prosseguem no seu modo de viver da época anterior, ou seja, vivem de frutos do
mato e de caça e pesca. E, paulatinamente, com esforço próprio, criam e desenvolvem uma cultura
neolítica.
Surgem então objetos de pedra polida e de barro. Em várias regiões do Japão encontram-se, às vezes,
em colinas voltadas para o Sul, conchas brancas e ossos, em meio às plantações. São restos de
conchas e ossos que formam os sambaquis. Nestes, além de restos de conchas, mariscos, ossos
de peixes e animais, vêem-se vários tipos de instrumentos usados pelos homens da época. Pelo
estudo dos sambaquis e de objetos neles encontrados podemos saber algo sobre os meios de vida
dos primitivos habitantes do Arquipélago.
Além da pesca e da caça, as frutas do mato constituem os principais alimentos. Já usam flechas
com pontas de pedra e caçam javalis e veados para sua alimentação. Catam conchas nas praias,
usam arpões e anzóis toscos feitos com pedaços de ossos de animais. Para cozinhar ou guardar
comidas empregam potes e vasos de barro.
Esses vasos ou potes de argila denominam-se de tipo ou estilo jômon (marca de corda ou esteira).
Este nome se deve à freqüencia com que se encontram marcas de cordas ou esteiras nos potes e vasos
da época. Constitui uma característica cultural dos habitantes do Japão dessa fase. Por isso a
idade neolítica japonesa é chamada pelos arqueólogos de época jômon.
Além do uso prático, aqueles objetos servem também para ornamentação. Os desenhos assumem feições
exageradas, de tão elaborados.
Quando o homem da idade da pedra inventa vasos, queimando argila, realiza um avanço intelectual
considerável, pois não se limita mais a usar pedras encontradas na natureza. Uma característica
do período neolítico japonês é precisamente a cultura jômon. Observe-se de passagem que os vasos dos
índios marajoaras do Pará se assemelham, com sua diversidade de desenhos e relevos, com os vasos
jômon.
Já então os japoneses primitivos possuem residências temporárias em determinados lugares. Antes
moram em cavernas ou sombra de rochas. Trata-se de casas cobertas de palha e sem soalho, erguidas
em cavidades rasas feitas na terra. Apresentam forma quadrada ou retangular, com os cantos
arredondados. Esta forma grosseira de habitação continua a ser usada durante muito tempo pelos
camponeses, mesmo após a formação do Estado Yamato.
Os primitivos japoneses ignoram durante milênios a agricultura. Nem sabem domesticar ou criar
animais. Formam pequenas aglomerações de casas por curto espaço de tempo. No fim da época neolítica
as concentrações se tomam maiores, diversificam-se os instrumentos de argila, pedra, ossos, etc.,
segundo se infere de restos encontrados nos sambaquis.
Numa sociedade como essa, em que a vida econômica se estriba na caça, pesca e frutos naturais,
somente uma união entre seus membros pode assegurar a sobrevivência da comunidade. Todos trabalham
juntos, os instrumentos necessários às atividades econômicas constituem propriedade comum. Não
há diferença entre ricos e pobres. Observando-se o modo de enterrar os mortos e os objetos da
época, verifica-se a inexistência de diferenciação de classes. Todos são sepultados do mesmo
modo.
Os mortos, enterrados sem caixão, têm os braços e pernas dobrados, às vezes com enormes pedras
sobre o peito. Inexiste o túmulo propriamente dito.
As famílias não se isolam da comunidade. E ainda não nasceu a idéia de culto dos antepassados,
que em épocas posteriores se torna uma das características marcantes da cultura nipônica. Os homens
formam uma comunidade primitiva de elementos ligados por parentesco. Constituem-se em grupos
que não chegam a ser tribos (porquanto não possuem caciques). Acreditam em certas formas de magia,
segundo se deduz das imagens de deuses e grandes macetes de pedra, provavelmente usados em
feitiçarias.
Na vida baseada na pesca, caça e algumas atividades extrativas, os homens temem ao extremo a
violência da natureza. Isso porque ainda não possuem nenhum meio de se defender contra as forças
naturais.
Os japoneses do período jômon acreditam que o sol, a lua, as estrelas, o trovão, o tufão, rios,
montes, árvores, animais e aves possuem alma. Mudanças de estação, repentinas anomalias de
condições atmosféricas, crescimento e morte de vegetais, todos os fenômenos se lhes afiguram
sobrenaturais, não conhecem suas causas. Por isso, por temor e medo, criam cultos a rochas,
árvores gigantes ou animais mais fortes do que o homem. Surge o culto à magia.
Para se proteger das iras das almas ou delas se livrar criam a feitiçaria.
Daí nasce uma série de tabus, que se arraiga na alma do povo nipônico por muitos séculos. Segundo
Zempati Ando, os tabus constituem características importantes da cultura antiga do Japão. E que
permanecem por muito tempo no fundo do caldo cultural da raça, chegando até nossos dias.
Não se esclareceu ainda se os homens da idade neolítica descendem ou não da paleolítica, ou se por
algum motivo estes desaparecem e em seu lugar surgem os neolíticos. Ou ainda se forma uma nova raça
resultante do caldeamento do homem paleolítico com o neolítico.
Ao que parece, os ancestrais dos neolíticos procedem uma parte do norte, isto é, da área
setentrional da Ásia, via Sacalina e Hokkaido ou ainda península coreana; outra provém do
sudeste asiático, via marítima, passando pelas ilhas Ryukyu (Okinawa). E seus descendentes,
vivendo sem contato com o exterior durante milhares de anos, pela miscigenação, formam uma raça
nova, ou seja, o protótipo do atual povo japonês. E ao mesmo tempo criam uma língua comum, que
seria o japonês original.
Aliás o problema da origem do idioma nipônico constitui igualmente um enigma, achando-se em fase
de intensos estudos, pesquisas e debates. Os dois problemas, a origem do povo japonês e da sua
língua estão intimamente entrelaçados, e provavelmente quando se decifrar um, o outro será
naturalmente solucionado.
Pela sua fonética e fraseologia, o idioma nipônico pode ser considerado de origem altaica (norte),
mas o seu vocabulário contém, segundo os estudiosos, influência de línguas polinésias
(sul).
Nas regiões mais afastadas do norte e sul vivem tribos de raças diferentes consideradas bárbaras
pelos japoneses antigos. Assim, na região de Kanto e Ou vivem os ezo, ancestrais dos atuais ainus
e no extremo meridional de Kyushu habitam os kumaso também chamados hayato que parecem pertencer
à raça indonésia. Esses dois grupos de povos são conquistados aos poucos pela Corte de Yamato
(já na fase histórica) mediante expedições sucessivas.
Na mitologia, nos hábitos e costumes e no físico dos japoneses se notam elementos originários
do norte e do sul. Estes fatos constituem a base para a formulação da teoria de que o povo
japonês resulta da mistura de raças oriundas do continente asiático, do norte e do sul.
Texto extraído do livro:
Japão Passado e Presente, de José Yamashiro
Aliança Cultural Brasil- Japão
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