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Lúcia Hiratsuka nasceu na cidade de Duartina (SP), em 1960.
É formada em artes plásticas e ilustra livros infantis há mais
de uma década.
Em 1988 ganhou uma bolsa do Governo Japonês de Futuoka e passou
um ano estudando a utilização de desenhos na literatura infantil.
A partir daí, iniciou uma busca por contos populares japoneses,
que resultou numa série de nove livros infantis, ricamente ilustrados.
A série de livros inspirou o lançamento do CD de música Contos
em Cantos do Japão.
Em entrevista, Lúcia relatou que entre suas lendas preferidas
estão "Kaguya Hime", "Urashima Taro" e O Pássaro Poente, pela
relação afetiva que tem e pela riqueza de simbologias apresentadas
pelas lendas.
A série de livros Contos e Lendas do Japão é composta pelos
seguintes livros:
· Kaguya Hime, A Princesa da Lua
· Urashima Taro, A História de um Pescador
· O Pássaro Poente
· Issum Boshi, O Pequeno Samurai
· Tanabata
· A Princesa e o Vaso
· Momotaro
· O Abanador Mágico do Tengu
1. Cite, por favor: nome completo, formação escolar, relação
dos livros publicados pela série Contos e lendas do Japão e
nome do vídeo produzido.
R: Os nove livros editados inicialmente em capa dura: Inicialmente
como Contos e Lendas do Japão
Kaguya Hime, A Princesa da Lua
Urashima Taro, A História de um Pescador
O Pássaro do Poente
Issum Boshi, O Pequeno Samurai
TANABATA
A Princesa e o Vaso
Momotaro
O Abanador Mágico do Tengu
O Casamento da Ratinha
Depois foram relançados pela CALLIS Editora, como Histórias
Antigas do Japão, os títulos:
Kaguya Hime, A Princesa da Lua
ISSUM BOSHI, O Pequeno Samurai
Foi lançado um CD " Contos em Cantos do Japão" , composição
de Mário Lima Brasil, inspirados nos livros. Músicas que misturam
sons da natureza com instrumentos típicos do Japão.
Foi lançado o vídeo, produzido pela Santa Clara Imagem e Movimento,
" Contos e Lendas do Japão" ( 6 histórias), com desenho, as
músicas do CD, animação e narração.
Foi lançado o CD - " MUKASHI...IMA, Contos e Lendas do Japão",
com 5 histórias.
( Os CDS, e o vídeo podem ser encontrados na livraria da Vila,
Rua Fradique Coutinho 915 - tel: 38145811
Ou na MCD que é distribuidora: 32370207
2. Como começou seu interesse por lendas e histórias japonesas?
R: O meu interesse por essas histórias japonesas começou quando
eu era criança e ouvi de minha avó.
Depois procurei livros em bibliotecas, para conhecer outras
histórias.
Fiz Faculdade de Belas Artes e sou Artista Plástica e Ilustradora.
Como trabalho com livros para criança, sou bastante ligada em
narrativas e por isso escrevo histórias também para ilustrar
e transformar em livros de imagem.
E em 1988 ganhei uma bolsa de estudo do Governo de Fukuoka no
Japão e fiquei 1 ano, na área de Arte Educação. Acho que quando
voltei, pensei de forma mais concreta em publicar os livros,
pois percebia que não havia uma versão em português com imagens,
que pudesse ser divulgado também em escolas.
3. Quais são as principais semelhanças e diferenças entres
as lendas ocidentais e japonesas? Existe alguma mensagem final
parecida nas duas?
R: Quando se fala em arte, eu prefiro não falar em mensagem
, pois acho que isso acaba empobrecendo.
Acho que as histórias, sejam as populares ou não, devem ser
vivenciadas emocionalmente, pois cada um pode apreender de forma
diferente, e depende também de cada momento.
Além disso, essas histórias são muito ricas em simbologias.
Por isso se procurar qual é a mensagem central de uma história,
perde-se o poético, o divino, o simbólico.
Segundo Mircea Eliade, um antropólogo, no livro " Mito e Realidade"
, ele fala que existem tres questões básicas que estão presente
nos contos populares:
A ser humano que é mortal, precisa trabalhar e é um ser sexuado.
E isso está presente em todos os contos de qualquer povo.
Na verdade, todo povo tem os seus mitos, as histórias sagradas,
dos deuses.
O homem sempre precisou da narrativa, como forma de tentar ordenar
o caos, de tentar explicar o que é inexplicável. E isso está
presente mesmo nos dias de hoje.
Os contos populares estão muito ligados aos mitos e também as
histórias de hoje, podemos falar como se fosse uma rede, nada
está sozinho, tudo tem um elo.
E os contos populares do Japão está muito próximo dos mitos
( que no caso da mitologia japonesa, dá origem ao xintoísmo).
Então, os elementos da natureza tem um Kami, uma alma, uma divindade.
Daí é verificamos os seres que nascem dos elementos da natureza.
Essa parte do conto popular é do mito, e não acontece só nas
histórias do Japão.
O nascimento de um herói é sempre de forma milagrosa. E existem
aqueles personagens que mesmo variando, exercem uma função,
como diz Vladmir Propp que analisou os contos populares russos
e fala das inúmeras funções como o herói, a heroína, o doador,
aquele que causa o dano, etc... E por aí dá para ver que a estrutura
de um conto popular é a mesma tanto no Ocidente quanto no Oriente.
Na verdade, para quem estuda os mitos é possível analisar as
histórias de qualquer povo. O que há de diferente no Japão,
provavelmente, é que existe a influência do budismo. Ficou um
pouco longo, mas de uma forma resumida, é isso.
4. Na sua opinião, existem personagens ou características
que estão sempre presentes nas lendas japonesas? Eu percebo,
por exemplo, a presença constante de seres mitológicos ou da
natureza.
R: A resposta está embutida na terceira. Gostaria de citar também
a presença de alguns elementos que substituem a fada, que seria
um ancestral, um mago, etc.
Como disse anteriormente, são personagens que exercem a mesma
função. O mal, muitas vezes é representado pelo Oni. A bruxa
aparece mais como um espírito da floresta, que seria a YAMAUBA.
Existe uma presença forte de personagens idosos.
5. Por que, embora sejam bastante conhecidas no Japão, as
lendas não são muito difundidas nos países ocidentais e no Brasil
especialmente?
R: As histórias não são tão conhecidas, pois a imigração no
Brasil é ainda recente, se compararmos com outros povos.
Talvez os japoneses não façam tanto esforço para divulgar essas
histórias, assim como muitas outras coisas.
Os ocidentais é que descobrem, a comida, o origami, a música
e acabam se expandindo, não é uma opinião baseada em pesquisa,
apenas um palpite.
Uma vez quando falei para um japonês que eu estava recontando
as histórias em português, ele me perguntou, se os brasileiros
iriam entender o espírito da coisa. Mas muitos acharam uma idéia
ótima.
6. Você acha que o Xintoísmo exerceu grande influência nas
lendas? De que forma?
R: Ficou também respondido na terceira pergunta. Mas complementando,
as histórias sagradas vão sendo contadas como histórias verdadeiras,
porém Mircea Eliade fala da dessacralização dos mitos. São os
contos populares que são histórias inventadas, quem conta sabe
que está contando uma história que não tem obrigação com a verdade,
o que é completamente diferente dos mitos.
Para o pensamento arcaico, o mito é sagrado e verdadeiro, segundo
Mircea Eliade e outros antropólogos.
No caso das lendas é um pouco diferente de contos, são histórias
que deram origem a alguma coisa. Ou uma pessoa, que provavelmente
existiu, ou não, o fato é que isso depois não interessa. A pessoa,
ou o acontecimento tornou se lenda. O "Urashima Taro" é uma
lenda.
7. Quais as lendas de que você mais gosta? Por que?
R: A história que eu gosto muito é a da "Kaguya Hime", "Urashima
Taro" e o " Pássaro do Poente". Deve ser uma relação afetiva
e claro, pela riqueza das simbologias.
Reportagem:
Erica Noda |
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